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Sou contra o populismo messiânico

Vez por outra, lembro-me daquele consultor americano e seus chapéus, na formação da Amana-Key, teatralizando sobre as relações humanas nas organizações. Incrível a força da representação, mesmo com a memória reduzida pela idade e a grande busca de conhecimento, consigo rever a essência de seus ensinamentos. As imagens permanecem perfeitas. Vejo o estilo golfinho, tubarão e as carpas com nítida clareza. Reflito sobre os arquétipos e observo que não precisamos de muito lero-lero, o fundamental são as práticas. Tem é gente que pensa que basta bradar suas frustrações, mas tagarelice é um instrumento sórdido da manipulação humana. Defendo o fortalecimento das instituições e, não, sua destruição.
Precisamos olhar para os lados – valores são desafios enormes, mas precisamos nos ocupar mais com os nossos, não vale cobrar só dos outros. Assim é mole, né mesmo... Pimenta nos olhos dos olhos é refresco. Haja pílula da felicidade pra darem conta de tanta irresponsabilidade.
Tenho verdadeira ojeriza à ditadura, não admito conceder tamanho poder para nenhum ridículo tirano.
A imagem hoje de capa do jornal o Globo é um cala boca geral aos incautos, que pensam que estamos em 1960. Fiquei emocionada ao ver o corajoso povo da Venezuela dizendo não às sórdidas armações de abuso de poder.
Sou a favor da democracia na América Latina. Jamais estarei enfileirada com o populismo e o personalismo messiânico, que pressupõem um salvador para o destino de milhões. Por mais complicado que seja o processo democrático é com ele que vou.
Tenho pensado muito sobre os grandes mestres que conheço. Alguns me ensinaram a pescar o alimento essencial, outros, o melhor uso de minhas lentes. Nenhum impôs sua razão. Sigo sempre disposta a aprender, com uma humildade grande. Dedico-lhes minha lealdade e amor.
On sai ram
Luinha
Escrito por Luinha às 10h15
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Persépolis
Estou à cata do filme de animação Persépolis, que promete. Dê só uma espiadinha abaixo.
Beijos
Luinha
Irã em quadrinhos premiados
Filme de animação, Persépolis retrata a vida de uma jovem diante da realidade política iraniana no final do século XX
por Graziella Beting
“Uma sabotagem à cultura iraniana." Foi assim que o governo do Irã se referiu a Persépolis, filme de animação da iraniana radicada na França Marjane Satrapi (co-autoria de Vincent Paronnaud), quando foi apresentado no Festival de Cannes. A animação em preto-e-branco, que arrematou o Prêmio do Júri, foi entendida como “um gesto de islamofobia” pelas autoridades iranianas.
Autobiográfico, o longa é uma adaptação das histórias em quadrinhos de Marjane Satrapi, um fenômeno editorial na França, publicadas no Brasil pela Companhia das Letras. Persépolis narra a vida de Marjane, da infância em Teerã, quando estourou a Revolução Islâmica de 1979 – que derrubou o xá Reza Pahlevi e levou os extremistas ao poder –, até a vida adulta, pósguerra com o Iraque.
Filha única de uma família de opositores ao regime do aiatolá Khomeini, a Marjane criança é uma espécie de Mafalda iraniana. O filme acompanha o recrudescimento do regime xiita e a difícil adolescência da personagem, entre a burca e os discos piratas do Iron Maiden. Com humor e sutileza, a autora conta sua história de forma comovente e engraçada, mesclada ao cenário político de seu país.
Escrito por Luinha às 11h45
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Alma velha e espírito jovem
Hoje estou por conta da saudade. Preparei um diretório no final de semana repletos de belas canções que contam sobre este sentimento que nos toma de assalto inúmeras vezes.
Respiro fundo, relaxo... Entrego-me sem qualquer apreensão às sensações e reflexões, que vão tomando conta de forma delicada.
Ai que delícia. Saúde!
Sinto-me em paz, embalada pelo colo de minha alma.
Segundo Clarissa no livro A Ciranda das Mulheres Sábias, é na alma da mulher que vive a velha sábia. Em nosso espírito, a jovem.
Quando me entranho pelas lembranças é da velha que estou à procura, mas não largo a mão da menina que apazigua a difícil luta diária. É ela quem cria o tom da minha realidade. Passo sempre parte do dia brincando ou saltitando com ela pelos campos das gerais.
Escrito por Luinha às 20h01
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Deus e o Diabo na Terra do Sol
Hoje recebi mais notícias de um amigo querido, que agora não vejo mais. Trabalhamos juntos alguns anos atrás. Ele era mais jovem, mas de uma responsabilidade admirável. Eu, extremamente exigente com a efetividade de nossas realizações; ele, com tranqüila paciência, sempre correspondia às nossas enormes responsabilidades.
Nesta época eu era pura energia. Lembro-me que dava choque ao circular entre as divisórias. Tudo funcionava redondo, pois trabalhávamos sobre a tutela da visão e meu chicote exigente, mas gentil. Era tempo de abertura democrática no Brasil, tantas coisas e sonhos para construir.
Sem dúvida foi André quem me introduziu de forma prática e eficaz no mundo informatizado. Lembro-me de sua eficiência e dedicação.
Claro que mesmo sem nos vermos, as relações humanas mantidas sob a tutela dos valores, jamais se perdem. O amor, a amizade, a admiração, o respeito são imortais.
Quando contei-lhe, na entrada do século XXI, já não trabalhávamos juntos, que queria me desligar do front, para estar nos bastidores e levar uma vida menos agitada, ele me disse que era um desperdício.
Esta semana mandou-me notícias, desde então trocamos algumas idéias por email. El, radical, enche o ego: “Você é a única mulher que respeito como profissional. A única que conheço que não precisa entrar no mundo dos homens para ser ouvida em uma reunião, pois tem talento, inteligência e etc..”. Depois de tantas réplicas, ele apela e diz: “O país precisa de gente como nós. Desistir é pecado.”
É o segundo homem bom que diz que sou bem resolvida como mulher.
Ai ai... Isto é demais.
Bem, imediatamente lembrei-me do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha. Uma obra–prima que não perde sua atualidade.
Continuo recebendo aqueles emails babacas de gente incompetente, que não consegue dormir com sua própria imagem. Recomendo verem seus limites com delicada compreensão.
Alerto a todos que doença dá em gente, não é castigo nem acaso. Somos finitos e precisamos digerir bem isso.
Ai ai... ou seria melhor Uiui...
Escrito por Luinha às 10h32
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A verdade
Quantas coisas para serem ditas nesses últimos dias. Foi uma semana de muita aprendizagem.
Constatei como ninguém o dito de que na vida, quando dizemos sim para uma coisa, dizemos não ao menos a uma outra. Isto é certo.
Consignei que eventualmente somos obrigados a magoar as pessoas, sejam elas amigas ou não. Trata-se de estabelecer limites. Ai ai... E isso exige uma responsabilidade enorme.
A responsabilidade está diretamente relacionada com a verdade – às nossas crenças nos fatos e nas coisas.
A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)
A porta da verdade estava aberta, mas só permitia passar meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade, Porque a meia pessoa que entrava Só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade Voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogo. Era dividida em metades diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a verdade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Escrito por Luinha às 13h23
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MORTES INVISÍVEIS
Juremir, meu cronista predileto,
Eu também CANSEI!
beijos
Luinha
Até a morte tem preço. Melhor, cada morto, dependendo da sua condição social, tem um valor diferenciado. Elementar! A cada um conforme a sua vida de necessidades. Na bolsa brasileira de valores da morte, as favelas do Rio de Janeiro pagam menos por ação, embora o risco seja maior. O capitalismo tem os seus paradoxos. Uma morte em Ipanema ou no Leblon vale, em princípio, muito mais do que um presunto bobo na favela Kelson's. Salvo se o morto for da favela Kelson's em expedição, obviamente suspeita, pela zona Sul. Isso, porém, não é exclusividade carioca. Somos igualmente distintivos em todo o país. Temos os mesmos valores. Não nos faltam identidade nem unidade nacional. A barbada é a seguinte: de novembro de 2006 até agora, pouco menos de um ano, uma milícia formada por gente da Polícia Militar já teria matado mais de 200 pessoas na tal favela Kelson's, na zona Norte da Cidade Maravilhosa, um recorde que não entrou nas estatísticas ufanistas do nosso Pan.
Essas mortes não escandalizam ninguém. Na verdade, são mortes invisíveis que quase nem aparecem na mídia. Salvo no atacado, como um número bruto, uma totalização, sem direito a biografia nem lamento dos familiares. É como se todos os mortos fossem mesmo suspeitos de algo, grave ou não, e, no fundo, merecessem o destino que a vida e os assassinos lhes reservaram. Essas mortes não trazem problema para o governo e ninguém acusa o presidente da República de ser o responsável por essa tragédia. Dessa, até os políticos escapam ilesos. Logo eles, que estão metidos em todas as frias. Mais de 200 mortos e nenhuma reação. Precisa ser morto realmente muito miserável! Com certeza, aqui entre nós, muitos cidadãos que se acham de bem até aplaudem. Devem pensar, e até dizer para os amigos mais próximos, 'esses aí já não vão nos incomodar'. Não há um 'cansei'.
A milícia da favela Kelson's, ligada ao Comando Vermelho, cobra taxa de proteção dos moradores. Por que reclamar? O preço é camarada: R$ 10,00 dos moradores comuns e R$ 20,00 dos comerciantes. É uma forma de imposto progressivo, baseada em alíquotas dobradas, que o governo federal deveria adotar com mais precisão e instrumentos de cobrança. A milícia garante a ordem, mantém os bandidos afastados e controla a venda de gás, a entrada de produtos alimentícios e a exploração das ligações clandestinas de TV a cabo, a 'gatonet', que não cai com a chuva. Parece que o sistema funciona perfeitamente. Há quem diga que as autoridades cariocas, especialmente a Secretaria de Segurança Pública, deveriam tomar esse esquema como parâmetro. Talvez até fazer um estágio com os milicianos. Há um pequeno 'senão': 200 mortos em dez meses. As boas línguas, insisto, sussurram que foram 200 bandidos.
Ah, bom! Então foi isso? Ufa! Não há CPI da miséria nacional. Muito menos CPI das mortes invisíveis. Quem se importa com cadáveres suburbanos, malvestidos, com ficha na Polícia e loucos por funk? Os esquadrões da morte estão bem vivos. Por que será que a OAB do Rio de Janeiro, a exemplo da OAB de São Paulo, não lança um movimento nacional, com um minuto de silêncio nalgum dia bastante divulgado, dizendo, para não ser acusada de plágio, em lugar de 'cansei', um 'basta'? Basta de territórios livres, dominados por bandidos justiceiros, dentro do território nacional, contrariando o Estado de direito. Cansei!
juremir@correiodopovo.com.br
Correio do Povo Porto Alegre - RS - Brasil
Escrito por Luinha às 10h16
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Em meus casuais encontros de beleza deparei-me com a produção desse poeta gaúcho contemporâneo - Fabricio Carpinejar. Senti uma enorme vontade de partilhar com vocês este poema que me tomou de assalto e emocionou-me profundamente.
beijinhos
Luinha
Poema do livro Terceira Sede
Décima elegia
Só na velhice o vento não ressuscita. A água dos olhos entra na surdez da neve e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão.
O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho. Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.
Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia. O exílio é na carne.
Esmorece o esforço de conciliar a verdade com a realidade. A neblina nos enterra vivos.
Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa, o riso atravessa o osso. Deciframos a descendência do vinho.
Os segredos não são contados porque ninguém quer ouvi-los. O lume raso do aposento é apanhado pela ave a pousar o bule das penas na estante do mar.
Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco. O suspiro é mais audível que o clamor.
Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.
Só na velhice os músculos são armas engatilhadas. O nome passa a me carregar.
É penoso subir os andares da voz, nos abrigamos no térreo de um assobio. Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.
O ódio esquece sua vingança. Amamos o que não temos.
Só na velhice digo bom-dia e recebo a resposta de noite. Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.
Só na velhice quantos sofrem à toa para narrar em detalhes seu sofrimento.
O pesadelo impõe dois turnos de trabalho. Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.
Sustentamos o atrito com o céu, plagiando com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.
Só na velhice há o receio em folhear edições raras e rasgar uma página gasta do manuseio. Embalo a espuma como um neto.
Confundimos a ordem do sinal da cruz. O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.
Só na velhice a forma está na força do sopro. Respeito Lázaro, que a custo de um milagre faleceu duas vezes.
O medo é de dormir na luz. Lamento ter sido indiscreto com minha dor e discreto com minha alegria.
Só na velhice a mesa fica repleta de ausências. Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite após arrebentar-se em música. Creio na cerração das manhãs. Conforto-me em ser apenas homem.
Envelheci, tenho muita infância pela frente.
Escrito por Luinha às 06h32
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O Labirinto do Fauno
Tenho assistido a muitos filmes, mas nem sempre disposta a registrar sua existência. Hoje tentarei cumprir esta proeza; puxarei um pouco de minha memória.
Amanheci disposta a terminar minhas cartas sobre a viagem que fiz ao Rio Grande do Sul, mas não tive muito sucesso. Rascunhei alguns trechos e revivi algumas deliciosas sensações, mas acabei me distraindo com outras coisas. Sinto-me ainda muito frágil para me obrigar a seja o que for.
Assim que dei uma relaxada resolvi pegar minha bicicleta que coloquei na reforma. Ficou uma beleza. Em breve desfrutarei do prazer de pedalar pela minha bela cidade. Planejei um passeio agora para às 15 horas, mas ainda não tive coragem de ir.
Na saída passei pela locadora e peguei mais um filme. Agora serão 3 filmes para desfrutarmos nesse final de semana.
Ao voltar preparei em poucos minutos uma picanha na panela, com cebolas e alhos ao vinho Piriquita. Degustei a deliciosa iguaria com salada de folhas e tomates, a filha, fez uma massa. Ficou uma delícia o nosso rango.
Depois da comilança, recolhemos a nossa preguiça e fomos assistir ao filme “O Labirinto do Fauno”. Ela deitou-se na rede, eu, no sofá. Um friozinho gostoso nos obrigou a ficar encolhidinhas.
A fita, envolvente do início ao fim, foi um espetáculo que me encantou por suas enormes possibilidades. Viajei pela história com a minha alma a deriva, exatamente como quando leio as fantásticas histórias de Clarissa Pinkola Estes, em “Mulheres que correm com Lobos”. A fantasia circulando a todo instante pela razão e realidade me embalando por caminhos fascinantes. A história não tem tempo está presente no aqui e agora para todos que circulam entre a opressão e a liberdade. Um prato para ser deliciado de múltiplas formas – doce ou amargo. Vale a pena conferir!
Destaquei o comentário do Paulo José no site Adoro Cinema:
"O que o diretor Guillermo del Toro conseguiu com esse longa é inacreditável. O filme é persuasivo, impactante, mágico. Não há maniqueísmo, ele leva com extrema competência narrativa o espectador a escolher o que é mais adequado a si mesmo, o filme é recheado de metáforas, e não deixem de prestar atenção extra a trilha que conduz majestosamente o filme... lindo, lindo, lindo..."
beijos
Luinha
Escrito por Luinha às 15h27
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Porto alegre, A chegada
Só agora me sinto inspirada para contar sobre minha viagem. O bicho anda pegando direto. Estou quase sem fôlego pra dar conta de tanta sacanagem, mas estou viva, na lutae sem perder a ternura. Algumas forças alinham-se em fileiras e isso sempre me deixa emocionada. Mas deixe pra lá, isto nem interessa.
Cheguei em Porto Alegre à noite. Estava super motivada para conhecer a pequena cidade. Assim que pisei no solo, liguei para minha amiga que chegara em um avião na nossa frente. Ela contou-me que nos aguardava em seu hotel para jantarmos todas juntas.
Peguei um táxi e segui com o fone em punho espiando e perguntando sobre tudo. Ri muito com a bem-humorada disposição do motorista do táxi. Ficou espantado com as mudanças de itinerário, “vamos pra lá, agora pra cá, que eu ía fazendo por conta dos acertos telefônicos. A minha companheira de taxi era aluna de minha amiga e nem tinha o mesmo humor, eu evitava o conflito entre os 2. Ria a vera. Disse-lhe que não se assustasse e jamais pretendesse entender as mulheres, especialmente cariocas.
Acordei super motivada, cama boa e aquecimento agradável. Tomei café com leite, comi queijo razoável e muito ovo. Adoro ovo, abusei tendo em vista que estava disposta a andar muito. Não havia outra opção que suportasse minha rigorosa dieta.
Subindo pela rua Senhor dos Passos, pois estava hospedada no Master Palace, cheia de alegria e boa vontade fui caminhando e absorvendo toda aquela eletricidade do nascer de mais um dia de trabalho na cidade de Porto Alegre. Vi logo como as pessoas eram bonitas. Eu, feliz, desfilava com calça de lã por baixo da calça comum e toda paramentada, luvas, toca, casacão e mochila nas costas, sorria pra todo mundo. Desci a primeira direita, esqueci o nome, e fui em frente.
Achei o comércio sem graça e muito caro, mas nem sou consumista desse tipo de negócio. Percebi que o centro está muito maltratado, as construções sem manutenção ou qualquer trato. Neste aspecto estamos aqui na cidade maravilhosa muito melhor.
Essas fotos são minhas primeiras imagens, a luz do dia, da capital gaúcha. Acordei, tomei café corrido e fui correndo conhecer a cidade. Era cedinho quando saíra do hotel para ir à luta. Assim que cheguei na esquina fui logo fotografando a informalidade. Pensei se teriam sido autorizadas ou não pela prefeitura (a energia do trabalho sempre presente). Só mais à frente procurei um guarda para sanar minha curiosidade. Ele apresentou-me ao chefe da fiscalização de posturas, que por coincidência estava bem ao lado. Batemos um bom papo antes dele iniciar a operação. Tudo igual, em qualquer canto do Brasil. Há um poder extraordinário financiando a informalidade de norte a sul pelo Brasil. É muito cômodo o capital gerar lucros absurdos sem pagar direitos trabalhistas ou impostos. Modelo falido do capital gerando mais desordem e falta de respeito.
Ía esquecendo de contar que sofri uma extorsão no hotel em minha primeira noite. Depois de jantar com minhas amigas fui ao hotel que havia reservado. E fui obrigada a voltar e pedir abrigo. Estava sem teto. Por me verem necessitada venderam dificuldades para cobrarem o que bem entendiam. Alegaram que não havia vaga e nem poderiam fazer o preço que fizeram para minhas amigas. Paguei por uma noite quase o preço que pagaram por 4. Mas se era inevitável, resolvi relaxar. Tive alguma culpa nisso. Por pura falta de tempo, andava trabalhando 16 horas por dia, fui parar em um hotel péssimo na rua Coronel Vicente - acho que Hotel Real Palace- que era um puteiro fedorento e mal conservado. Tiveram a audácia de me dizer que não havia feito reserva, o mesmo esquema de favor forçado, detesto isso. Havia vazamento incrível no banheiro e camas horríveis. Nem esquentei e fui embora. Independência demais dá nisso.
beijos
Luinha
Escrito por Luinha às 21h29
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Inimigos... melhor não tê-los
Espetacular o texto publicado por Francisco Ferraz no site de "Política para Políticos".
Beijos
Luinha
Inimigos... melhor não tê-los
Não tente mudar seus inimigos: tente controlá-los. Saiba onde estão, o que pensam, e em quem confiam
Inimigo é um problema sério. Em primeiro lugar é importante não confundir adversário com inimigo. Adversários o político sempre terá, contra eles vai concorrer, com eles vai disputar espaço político, prestígio, poder. Adversários entretanto são conjunturais, mudam com o tempo e as circunstâncias. O adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã.
 O que distingue o conflito entre adversários e entre inimigos é a presença do ódio como fator dominante, como motivação principal
A disputa entre adversários pode e costuma ser dura, envolve ataques, acusações, hostilidade. Entre adversários, porém, não existe ódio. O que distingue o conflito entre adversários e entre inimigos é a presença do ódio como fator dominante, como motivação principal.
O ódio é pessoal, irreversível, radical. É um sentimento que lança suas raízes no plano mais íntimo da individualidade das pessoas.
Seu objetivo real, muitas vezes não reconhecido, é a eliminação completa do inimigo (eliminação seja no campo da política, da vida social, econômica, profissional, e no limite, o próprio desejo da morte física).
Na vida familiar, social, profissional, podemos ter adversários e até inimigos. O mesmo ocorre na política. As instituições democráticas são as formas mais desenvolvidas de convívio político, exatamente porque institucionalizam o conflito ao tempo em que fixam os seus limites.
O pluralismo, a liberdade de organização política e de associação, os direitos individuais, os direitos das minorias, as eleições periódicas, são todas instituições que legitimam o conflito e o mantêm dentro de limites que respeitem os direitos dos cidadãos.
O que são as eleições senão um conflito limitado entre adversários, com regras claras e explícitas para definir quem vence? Na política democrática então, como regra, o conflito ocorre entre adversários.
Na verdade, é comum dizer-se que os adversários estão nos outros partidos, os inimigos estão no nosso partido!
É um erro de graves conseqüências tratar adversários como inimigos e inimigos como adversários: os primeiros poderão acabar tornando-se inimigos e os segundos não mudarão seus sentimentos.
As leis do poder ensinam que não se deve tentar mudar os inimigos, porque eles não mudarão. O que compete fazer é tentar controlá-los, para evitar que o prejudiquem, porque mil amigos não são suficientes, um inimigo o é. Não existe inimigo inofensivo.
Francisco Ferraz
Escrito por Luinha às 08h33
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Ontem jantava com a filha e refletíamos sobre o humano e suas relações. Ela concluía como é oportuno um divã.
Interessante que em conseqüência de meus múltiplos uiuis, estive a pouco num banho longo e demorado - nada correto, mas tendo em vista minhas limitações, possível - pensando em reler algumas passagens de Getúlio, de Juremir Machado da Silva, para abstrair um pouco mais sobre o homem, seus podres e amados poderes.
Logo que cheguei ao meu posto avançado de trabalho li o texto do Francisco Ferraz do “Política para Políticos”. Fiquei tocada com o respirar juntos nessa era de redes inorgânicas de conhecimentos. Tudo de bom ... o texto está impecável. Fantástico!
Parei para observar na prática como se daria a arquitetura dessas dolorosas construções. Obrigatoriamente pressupõem-se a necessidade doentia de jogar o famigerado jogo da culpa e representar aqueles papéis de vítima, vilão ou bonzinho. Estou fora!!!!
Ah... imaginário, quantas possibilidades. Nem sempre percebemos o poder e a responsabilidade sobre a vida e morte que temos ao dispor.
O humano amedrontado ou com baixa estima e muitas frustrações é capaz de mundos e fundos (os freudianos mecanismos de defesa) para preservar sua vida possível esteja lá em Bagda, no Morro dos Macacos, no show da praça da Sé, ou em qualquer situação. O jogo perverso é sempre o mesmo.
Outro dia especulávamos sobre os horrores das práticas nos tais ambientes de “minorias”. Falávamos sobre a guerra urbana. Como podem ser tão sórdidos, tiranos vis e opressores. Queimam vivas as envelhecidas crianças ou arrastam inocentes puros por aí. Isso não é nada diferente das queixas que ouço a respeito de várias relações familiares ou nas organizações. Seria todo humano aguerrido, movido somente pela sede de sangue? Só conseguem motivação se estiverem comprometidos com algum tipo de oposição?
Percebo que a respeito do uso do arsenal bélico é tudo igual, seja tecnológico ou psicológico. Diria mesmo que em referência ao uso estamos avançados em ambos os casos em relação ao altíssimo poder de destruição, mas com erros absurdos na especificidade do alvo. Destruímos todo o entorno. Não sobra nada, seja lá quem for.
Na minha perplexidade percebo como único remédio uma terapia de beleza para fazer transbordar o amor, próprio, uno, Os recursos necessários são baratos dependem só dos sentidos. Assim ficamos habilitados ao estado de graça, que nos motiva de forma saudável a seguir adiante. Supera-se o medo e as dores do humor. Vivo investindo nisto, quando me sinto esvaziar ouço logo uns sininhos e se teimo em ficar surda vem umas poderosas cornetas em meu socorro avisando “tem que mudar”.
Fazei-me dizer sim. Anamastê.
Beijos
Luinha
Escrito por Luinha às 08h17
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Jardim
Já divulguei o texto espetacular de Rubem Alves, mas cada vez que me encontro com ele fico estimulada por sua beleza.
Ele ainda usa uma das mais belas poesias de Clarice Lispector. Ah! quantas vezes embalei-me por ela. Sempre fico deliciosamente surpreendida com o poder da genialidade do sabedor da arte. Entra por nossas entranhas de forma certeira.
Lá vai repeteco banhado pela belíssima Melodia Sentimental de Villa Lobos com Zizi Possi. Se alguém quiser envio (4mb)
Bem no estilo da saudade tratada por aqui, a bela canção, que conheci numa seção de biodanza uns poucos anos atrás, encaixa-se perfeitamente - uma obra prima.
Infelizmente há restrição de espaço por aqui, vou postar só algumas partes. Na íntegra em meu space do msn.
Love
Luinha
Por Rubem Alves
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"... Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia. |
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O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos... |
Escrito por Luinha às 07h41
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Touro indomado
Ontem à tarde eu e a filha ficamos deitadas na sala juntinhas de perna para o ar para assistir “Touro Indomável” filme de Scorsese com Robert de Niro.
Inicialmente reclamei por sua escolha. Ora, não agüento mais tanta violência, percebo que tenho limites. Ela defendia-se: “Trata-se de um clássico, uma obra prima”. Resolvi dar-lhe um voto de confiança e mesmo enfiando a cara no travesseiro todas as vezes que a porrada comia solta, vi de ponta a rabo tudinho.
Sempre gostei de acompanhar as escolhas de meus filhos. Vi com o mais velho a saga do tarado assassino da motoserra 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, até sei lá quantos. Tudo lixo e porcaria, mas precisava viver com ele aquilo para expor toda minha ojeriza. Creio que ele assistia só para me ver reagir muito. Os filhos adoram testar e manipular nossos limites. Eu aproveitava aqueles momentos para discutir o que era essencial em nossos valores. Enfim a fase perversa de testar os seus e os meus limites durou pouco. Ele tornou-se um belo adulto. Lembro-me até hoje dele pequenino brincando com sua coleção de bonecos guerreiros, quando ele saía um instantinho, eu os colocava sentados numa mesa redonda, olho no olho, negociando a paz. Quando ele voltava, sorria ao ver-me manipulando os bonecos de diferentes facções, num diálogo enérgico pela desejada utopia. Creio que são essas pequenas oportunidades no convívio com os filhos que nos fazem cada vez melhores.
Desde pequenos mostrei-lhes o que poderíamos fazer com nossos olhos. Fico assustada como se parecem comigo, por não delegarem aos outros suas próprias responsabilidades. Isto as vezes é tão difícil de ser digerido.
Voltando ao filme, a filha não estava enganada, filmaço este drama psicológico. A trilha sonora excelente, a atuação brilhante dos atores, tudo muito bom. O roteiro impecável vai desnudando o dia a dia da luta do homem pela glória, os perversos jogos que nos impõem às relações humanas, o lixo emocional gerado, as patologias mentais que não são tratadas impondo tantos males e dores. A fita não perde o pique mostrando com competência a curva do poder, sua ascensão e queda.
A filha dá uma acordada aqui e blasfema contra São Pedro por conta do céu estar nublado, mas com mormaço. Diz que isso só acontece com ela.
Shanti
Luinha
Escrito por Luinha às 09h01
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mais um tanto da delicadeza de Clarice Meireles
Tu és como o rosto das rosas: diferente em cada pétala. Onde estava o teu perfume? Ninguém soube. Teu lábio sorriu para todos os ventos e o mundo inteiro ficou feliz.
(Cecília Meireles)
Escrito por Luinha às 14h46
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Senhorita dona-de- si
Olhem que beleza o poema de Zeh Gustavo, do livro “Idade do Zero” (Editora Escrituras, SP)
Senhorita dona-de- si
Tem uma pessoa dentro de mim que habita distante. Já foi um dia meu espelho. Já foi um dia meu caminho. Caminha hoje embalada por aí. Virou fantasma. Tornou lembrança. Que entretanto não me sai.
Escrito por Luinha às 13h39
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