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Melodia sentimental
Estava aqui pronta para dormir quando ouço Melodia Sentimental de Villa Lobos cantada em prosa e verso por Zizi Possi. É algo de extraordinária beleza. Lembrei-me logo de como aconteceu meu caso especialíssimo com essa bela canção. Estava na aula de biodanza há 2 anos atrás enroscada na rede da mulher esqueleto encarando a vida-morte-vida banhada de grande prazer e essa música me embalava no colo. A biodanza tem disso , nos faz visitar as profundezas do deserto banhada de prazer e harmonia. Ai ai... Nunca havia ouvido a bela canção e fiquei logo doidinha para tê-la ali ao alcance de minhas mãos. Passei algum tempo procurando, enfim achei um belo cd de Zizi Possi que trazia a canção. Foi um Deus nos acuda, na época estava comprometida até as entranhas com enormes responsabilidades. Cumpria o imperioso desafio de dar provas do amor para um coração cansado de sofrer. Coisas da Luinha virtual, do imaginário e do real. Foi lindo, inesquecível. Garantiu-se convicções e frutos. O negócio do amor purificou algumas mágoas e suprimiu a dor. Curar não sei, mas foi tempo de assumir que um novo amor podia chegar. Hoje tempo de saudade. Foi-se adiante o amor sorrindo serelepe pelo caminho. Dançando a mandala do fogo e sacudindo ossos. Pronto para insistir e tentar.
Até mais ver
Luinha
SENTIMENTAL (Heitor Vila-Lobos - Dora Vasconselos)
Acorda, vem ver a lua Que dorme na noite escura Que surge tão bela e branca Derramando doçura Clara chama silente Ardendo meu sonhar As asas da noite que surgem E correm o espaço profundo Oh, doce amada, desperta Vem dar teu calor ao luar Quisera saber-te minha Na hora serena e calma A sombra confia ao vento O limite da espera Quando dentro da noite Reclama o teu amor Acorda, vem olhar a lua Que dorme na noite escura Querida, és linda e meiga Sentir meu amor e sonhar
Escrito por Luinha às 21h40
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A palavra foi dada ao homem para que ele esconda seu pensamento, Malagrida
Enfim peguei meu livro – As Tecnologias do Imaginário – de Juremir Machado da Silva (ai... ai...).
Fazia tempo não comprava livro em livraria. Acreditem estava mais barato que o menor preço pesquisado pela internet. Voltarei a vasculhar livrarias. Aliás, prazer que me seduz há muitos anos.Gosto demais. Contei que uma vez me sentindo frágil e assustada com a vida encontrei-me perdida em uma livraria abrindo e lendo orelhas de livros, quando repentinamente um livro caiu sobre minha cabeça e assim deu-se a transformação? Pois foi - segundo a linha conceitual de imaginário de Juremir - um bom exemplo para dizer que só existo por construir imaginários que me impulsionam no processo infindável de humanização. Um bom exemplo de racionalização imaginária.
Lógico que atraquei-me com o livro entre um papo furado e outro no trabalho. Vez por outra dou uma risadinha gostosa. Ao ler as 20 primeiras páginas deliciei-me com as lembranças das discussões lacanianas na faculdade de psicologia. O primeiro grupo de professores brasileiros formados pelo grande mestre do simbólico vieram a ser meus colegas de turma por restrições acadêmicas puramente formais. O MEC não reconhecia o título da Sorbonne. Era 1975/76 a ditadura vivia ainda seu apogeu. Vários professores cediam seus tempos de aula para que pudéssemos curtir o “novo” conhecimento. Não havia literatura disponível. As bibliotecas estavam fechadas. Vivíamos sob regime de alta repressão nas universidades. Na realidade era o complemento perfeito para nossa pouca disposição ao formal, pura loucura, masturbação mental. Depois saíamos para discutir no barzinho da esquina a revolução sexual descrita por Wilhelm Reich e colocar tudo em prática. Tenho que confessar que a melhor parte era a ação. O que se pode esperar de um sujeito com 18 – 20 anos. Ninguém agüentava só discutir sua existência no imaginário.
Depois voltarei ao tema.
Beijinhos
Luinha
Escrito por Luinha às 15h41
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Dica para meninos
Desde ontem estava doida para escrever um pouco, mas compromissos sociais que não podiam ser descartados tomaram o meu dia e noite. Ontem saí com um amigo. Fui convocada. Há 32 anos nos conhecemos. Fizemos faculdade juntos. Por acaso é o melhor amigo de meu ex2 desde essa época. Nossas conversas são sempre muito proveitosas. Tenho alguns amigos que podemos ficar sem nos vermos uma eternidade, quando se dá o reencontro parece que paramos ainda agora. São relações que têm lastro, muitas referências. Coisa boa demais. Deixei que ele escolhesse o local do almoço. Ando crescida. Um tempinho atrás eu já teria decidido tudo. Assim que ele perguntasse aonde eu gostaria de ir, sem perda de tempo fecharia a questão. Passei a bola. Ele escolheu um de meus lugares prediletos. Aquele recanto lá na Praia Vermelha. O dia estava lindo e o papo rendeu. Fomos desalojados do restaurante para a pracinha. Contou-me detalhes sobre sua última separação, filhos, trabalho, sobrevivência e sobre ele. Depois quis saber de tudo sobre mim. Falou-me que sou sua única amiga mulher. Senti-me cheia de responsabilidades. Creio que minha filha tem razão. A bola da vez será a tal da responsabilidade. Pena que meu Dr. Fróid anda distante. Qualquer hora agarro ele pelo pé.
Tenho pensado muito sobre a natureza dual da mulher. Lógico que isto provocada pela explícita dificuldade dos “meninos” em nos entender. Quem melhor explicou a questão foi Clarissa P. Éstes. Quem tiver um tempinho dê uma espiada no capítulo 4 – Um hino ao homem selvagem ( Mulheres que correm com lobos, pag. 148). Uauuuuu... Vale a pena conferir. Juremir hoje em sua crônica implica com isso e outras coisas mais. Coloquei na íntegra ali embaixo. Clarissa conta uma história que trata de desvendar o relacionamento da mulher com seu parceiro. Decifra que o segredo para conquistar o coração de uma Mulher Selvagem é entender profundamente sua dualidade natural. Ela nos sacode com muita sabedoria. Ai ai...
Ontem questionei meu amigo sobre paqueras. Logo ele me contou sua última tentativa. Putz que loucura. Meninas abram os olhos. Ele me disse que reencontrara uma amiga de ginásio e logo passaram a sair. Lá pelo 3º encontro ela comprou-lhe celular para poderem falar gratuitamente e assumiu o papel completo de mãe. Comprou-lhe roupas, fez comidinha especial em sua casa. Contou que ficou apavorado. Fugiu com toda pressa. Depois disse que não teve química. Não colou.
Creio que as meninas devem procurar cada vez mais cedo suas sacadas. Atenção ao alicerces. Cutuquem os meninos. Por sua condição mono têm muito mais prática.
Beijinhos
Luinha
Escrito por Luinha às 20h13
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A sacada
A SACADA
Nada mais certo: cedo ou tarde, uma mulher exige uma sacada. É batata. Já tentei entender essa obsessão da mulher hipermoderna à luz das idéias de Freud, Jung, Lacan e Gildo de Freitas. Não avancei muito.
> Ultimamente, tenho recorrido a um pensador alemão chamado Simmel, criador das metáforas da porta e da ponte. Segundo ele, a porta fecha; a ponte, liga (abre). E a sacada? Pois é, ainda não sei bem como explicar o desejo de sacada da mulher com base nas imagens de Simmel. Mas vou chegar lá. Alguns dados são objetivos: a sacada se torna uma necessidade imperiosa a partir do oitavo ano de casamento. Conforme estatísticas extra-oficiais, ela é a razão profunda de 47,4% dos divórcios de casais com mais de 12 anos de matrimônio.
> Nas obras de grandes pensadores, como Gaston Bachelard e Gilbert Durand, os elementos pontiagudos, fálicos, aparecem como símbolos da produção, do masculino, do diurno, ou seja, da modernidade. É por isso que quase todo homem tem uma caixa de ferramentas. Já, como vive explicando o meu mestre Michel Maffesoli, o feminino tem a ver com a noite, a poesia, o comportamento boêmio, com o côncavo, a concha, com o que ele chama de 'invaginação' do mundo pós-moderno. Será que a sacada, com seu formato feminino, é nova marca da dominação da mulher? Não sei. Posso somente garantir que o desejo de sacada é profundamente feminino. Os homens preferem os sofás.
> Há um itinerário do problema da sacada na vida de um casal. No começo, a mulher sonha com uma. O marido nem ouve. Depois, ela não pára mais de falar no assunto. O cara chuta o balde. Não quer se mudar, não vai se mudar, o apartamento é bom, quase novo, mal terminaram de pagar, ponto final. A mulher recua estrategicamente. Não fala mais na história por uns 15 dias. Em contrapartida, passa a dar palpites sobre coisas inimagináveis. Defende o gordo como titular no ataque do Brasil. Coleciona o álbum da Copa do Mundo só para ter muitas figurinhas repetidas do Kaká. Elogia a elegância e a objetividade do Galvão Bueno. Garante que vai votar no Lulla de novo. Escuta os tribalistas 15 vezes por dia. Implica com tudo.
> O marido percebe que é hora de agir. Afinal, em qualquer situação desse tipo, a mulher sempre vence. É só uma questão de tempo. Nas últimas semanas, oito mulheres me disseram que desejam mudar de apartamento para ter uma sacada. Tentei aproveitar os seus depoimentos como amostragem científica para forjar alguma teoria sobre o tema. As respostas que obtive foram: ter uma sacada é muito bacana. Serve para colocar plantas. Abre o horizonte. Liga o apartamento com o lado de fora. Simmel puro e intuitivo. A sacada é uma questão essencial da psicologia do casamento neste começo de século XXI. Se Balzac fosse vivo, teria de acrescentar um volume na sua obra sobre ela. A situação é tão grave que já existem casos de precocidade vertiginosa. Uma menina de 10 anos tentou fugir de casa porque o pai não queria, ou não podia, comprar um apartamento com sacada. Já existe até o fenômeno das Marias Sacadas. Elas só casam se o sujeito for capaz de bancar um apartamento, mesmo que seja um JK, com uma sacada. Ao menos, uma sacadinha. Nem precisa ter uma 4 x 4. Entre os casais mais velhos, depois que a mulher recua e passa a implicar com tudo, o marido, louco pela sua velha e boa paz, trata de ceder. 'Está bem, vamos à sacada.' Aí a mulher não quer mais. O coitado passa a ler os classificados, liga para as imobiliárias, faz de tudo para liquidar o assunto. Em vão. A mulher continua elogiando as pernas do Kaká, as coxas do Roberto Carlos, os livros do Chico Buarque, os discos do Vítor Ramil, o escambau.
> O pobre do marido implora, argumenta, canta em prosa e verso os méritos de uma sacada. Faz cálculos. Dispõe-se a perder dinheiro, a contrair dívidas, a pedir um financiamento de 25 anos, tudo, enfim, para matar o problema. Tenho um amigo que quase enlouqueceu. A mulher e a amante dele pediram sacadas. Portanto, eu, como cronista de auto-ajuda, dou um conselho aos meus leitores: evitem tudo isso, antecipem-se, larguem na frente. Comprem um apartamento com sacada ao primeiro sinal de que esse desejo terrível se instalou no corpo da esposa. Confesso que eu ainda não comprei. Mas estou procurando. Talvez a sacada seja uma herança portuguesa, uma varanda. Vou reler Gilberto Freyre no intervalo dos classificados.
E-mail: juremir@correiodopovo.com.br
Escrito por Luinha às 20h13
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Acabei de ler o livro de Gabriel Garcia Márquez, “Memórias de minhas putas tristes”. Sinto saudades do gosto forte de vida ali empregado. Havia comentado sobre isso, mas creio que a genialidade do autor, que me seduziu na década de 80 com os livros “O Amor nos Tempos do Cólera e Cem Anos de Solidão”, merece. Está certo que embaralhei as histórias de tanta beleza com a de outro jornalista e escritor, aliás meu predileto, Juremir Machado. Sua crônica da última quarta falava sobre algo que tem me deixado esperta não é de hoje. (abaixo)
Algumas pessoas já me perguntaram se estou apaixonada pelo Juremir. Ora ora se estivessem enturmados com a riqueza de oportunidades que o amor proporciona saberiam do quê se trata minha relação. Ele me faz suspirar. A despeito de meu potencial para criar e recriar realidades, ele tem alguma responsabilidade sobre isso. Tem a mania de fuxicar minhas tecladas por aqui no mundo virtual e como explicita bem Clarissa Pinkola Èstes, em “Mulheres que Correm com Lobos”, é um homem selvagem, que por sua natureza instintiva “vai espiar por baixo da cabana da alma de uma mulher e compreender o que vir e ouvir lá”. Ai ai... Lembro-me daquelas pinceladas em seu livro “Getúlio”. Imperdíveis.
Quando vejo o quase centenário cronista, personagem de Márquez, deliciar-se e perder-se de amor com sua bela puta adormecida percebo com clareza sua força e disposição. Lembro-me do profundo toque de Estes “... é um ato de profundo amor o de se permitir ser pertubado pela alma primitiva dos outros”. Rememoro outra passagem sobre a bela adormecida.
“... sono que deslinda a meada enredada das preocupações, o sono é o banho reparador do trabalho doloroso, o bálsamo das almas feridas, o segundo prato na mesa da grande Natureza, o principal alimento do festim da vida”. (- Shakespeare, Macbeth). VIVA A TRANSFORMAÇÃO.
Ressalvas para o que há de literal na história. As pobres virgens, puras meninas deveriam ser deixadas em paz pela volúpia desenfreada de alguns homens babacas.
Beijinhos
Luinha
IMAGINÁRIO Juremir Machado da Silva
Todo imaginário é real. Todo real é imaginário. Na verdade, a realidade, nos seus aspectos simbólicos, é uma construção quase aleatória de significados. De certa forma, inventamos o que vemos e vemos o que inventamos. O 'quadrado mágico', nova versão da poesia futebolística, não existe. Mas poderá existir se conseguir converter em ações uma parte que seja da expectativa nele projetada. No popular, o real é forçado a acontecer por nossas artimanhas retóricas. Dado que o criamos com palavras, ele acaba, muitas vezes, por se cristalizar diante dos nossos olhos. Exageramos para melhor fabricar aquilo que sonhamos ver como natural e espontâneo. A realidade tem a solidez de um dogma recém-inventado. A tradição sempre surge moderna.
Um dia, a partir de alguns dados objetivos e da vontade de gerar um mito, Pelé foi transformado em rei do futebol. A mídia é monarquista. Adora reis, rainhas, princesas, imperadores e cortes. Qualquer um sabe que é impossível mensurar o melhor em futebol. Pode-se somente escolher. Ou dizer quem é bom ou ruim. Mas nunca fixar quem é o melhor. É possível dizer quem fez mais gols, quem venceu mais Copas, quem bateu mais recordes. No entanto, o melhor pode não ter sido o mais produtivo. A objetividade é uma ilusão. Não importa. A magia da vida consiste em inventar expressões que antecipem o real para melhor.
Uma Copa do Mundo não teria a menor graça sem esta fabricação prévia de mitos e de personagens. Descoberta a grande sacada, resta torcer para que cada ator a absorva e a confirme na 'realidade'. Depois, passados alguns anos, apagamos as impurezas do fato e ficamos apenas com os mitos, ou seja, com a poesia das expressões e a beleza dos títulos aplicados aos protagonistas: diamante negro, anjo das pernas tortas, canhotinha de ouro, rei do futebol, melhor do mundo... No fundo, a vida requer uma boa dose cotidiana de marketing. Os narradores de futebol são contadores mágicos de histórias que, mesmo com as imagens da televisão diante dos nossos olhos, conseguem nos revelar o que está acontecendo no imaginário real. Um telespectador objetivo veria quatro excelentes jogadores em campo. O narrador nos mostra um 'quadrado mágico'. Então, tudo se transforma e começa a fazer sentido. O fato só ganha significado quando é apresentado como lenda.
juremir@correiopovo.com.br
Escrito por Luinha às 15h51
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