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Capim Gordura
Recebi mensagens e mesmo presentes de alguns amigos por conta do dia comemorativo do “AMIGO”. Adorei o carinho. Entretanto nunca consigo lembrar-me dessas datas. Não quer dizer que lhes dou pouca importância. Hoje, depois de estudar por aqui e ali, acabei me deparando com uma linda crônica de Rubem Alves. Logo percebi que tratava-se de uma oportunidade para contar sobre o valor de sua amizade. Eu já conhecia o texto de Alves. Sou fã do sábio mestre e escritor. Talvez até tenha postado na íntegra em outra oportunidade. Não sei... Hoje virá em parte. Entretanto mais uma vez ele me faz mergulhar entre coisas grandes, que nos unem em sociedade, e, deliciosas coisas pequenas, que me preenchem de beleza. Trazem o doce sabor da amizade. Imagine quanto capim gordura não partilhamos por aqui. Você me cativou. Trouxe motivos. Fez minha alma sorrir.
Obrigada, com amor.
Beijos
Luinha
Por Rubem Alves
Sociedades se constroem quando os homens concordam sobre coisas grandes. A amizade acontece quando os homens concordam sobre coisas pequenas. Faz tempo escrevi um artigo longo sobre um tema que esqueci. O dito artigo provocou, num dos meus leitores do sul de Minas, um carta. Escreveu-me não para comentar o artigo – irrelevante – mas para dizer que ficara comovido porque, num certo lugar, eu falara sobre “o cheiro bom do capim gordura”.
A partir dessa imagem a um tempo visual e nasal - pois havia a visão do campo de capim gordura e o cheiro do capim gordura - ele se pôs a descrever sua experiência diária: passava, de manhãzinha, sol ainda não nascido, por um campo coberto de capim gordura. “ O silêncio verde dos campos...” E havia a névoa misteriosa que tudo envolvia. De vez em quando, o barulhinho de algum regato que corria invisível, coberto pela vegetação.. E, saindo dele, como se fosse sua respiração, seu mais profundo segredo, o perfume. Mistério.
Mistério, essa palavra misteriosa. Em inglês a palavra mistério se escreve “mystery”. Pois um dia, por inspiração imediata, passei a escrevê-la de uma forma diferente: misteerie. “Mist” é neblina. “eerie” quer dizer assombroso, que provoca medo. Acho que minha grafia, inspirada na poesia, é melhor que a grafia do dicionário, derivada da etimologia. Essa é a minha contribuição para a língua inglesa. É isso que se sente de manhãzinha, sozinho, ao caminhar pelos campos de capim gordura. Não há igreja, templo ou santuário que se lhe compare. Essas caixas de tijolo e cimento que os empresários da religião constroem para engaiolar o sagrado, na maior parte das vezes provocam-me o sentimento oposto, de horror estético. Deus deve ter muito mau gosto...
Pois é: quando li aquela carta imediatamente me descobri amigo daquele homem distante. Se não me equivoco o seu nome era Gerson, e vive em Poços de Caldas. Sempre que vejo capim gordura me lembro dele. De todo o palavrório que escrevi naquele artigo, o que sobrou, o que valeu, foi uma imagem imobilizada num momento eterno: o capim gordura, com o seu cheiro bom... (Desgraça: os criadores de gado, para terem mais lucro, acabaram com o capim gordura e o substituíram por uma praga africana chamada braquiária, que é um câncer nos pastos que nem a quimioterapia mais violenta pode com ele... ).
Como aconteceu com o Pequeno Príncipe e a raposa. O Pequeno Príncipe, contra vontade, cativara a raposa, a pedido dela. Mas chegou a hora da despedida e a raposa disse: “Vou chorar”. O Pequeno Príncipe retrucou: “ Não é culpa minha. Eu não queria te cativar. Agora você vai chorar. Qual foi a vantagem?” Respondeu a raposa: “A vantagem? Os campos de trigo. Eu sou uma raposa. Como galinhas. O trigo me é indiferente. Mas você me cativou. Seu cabelo é louro. Os campos de trigo são dourados. Porque você me cativou sempre que o vento balançar as espigas douradas de trigo eu me lembrarei de você. E sorrirei...”
Escrito por Luinha às 15h20
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Fases da Lua
Li e partilhei bem ali embaixo a belíssima poesia de Cecília Meirelles. Serviu como uma pomada poderosa pra curar dodói. Assim como ela, passei um dia inquieta. Não estou pronta amadurecida para a guerra. São tantas perdas e órfãos. Eles sentem muito medo. Eu embaralho sentimentos. Os deles, repleto de realidade, os meus, cobertos de imaginação. Eles tremem inseguros. Eu minto vergonhosamente. Digo-lhes que estão seguros. Eles acreditam. Percebem que não sinto medo. Eles nem notam a minha vergonha. Hoje colou, mas até quando? Chega dessa violência. Creio que devo ir adiante, mas me sinto exausta.
Beijinhos
Luinha
Tenho fase como a lua.
Fase de andar escondida.
Fase de vir para a rua.
Perdição de minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fase de ser só tua.
Tenho outras de ser sozinha
Escrito por Luinha às 22h09
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O Declínio do Império Americano
“A compaixão, a justiça e a ética não pertencem a história”, com esta afirmativa o profº de história Remy deixa atentos seus alunos na universidade, e se dá o início do filme canadense “O Declínio do Império Americano.” Foi excelente a dica de Lú. Vale a pena conferir. O roteiro perfeito e os diálogos primorosos nos conduzem de forma agradável pelos meandros das relações afetivas e sexuais. Desnuda com perspicácia os frágeis valores que sustentam instituições como a família até o dia de hoje. Vale a pena conferir.
Estarei vendo hoje a segunda parte, As Invasões Bárbaras, que recebeu o Oscar de 2004.
Pela manhã, a exemplo do filme, me reuni com algumas amigas. O papo divertido rolou solto. Concluí que a despeito de qualquer intriga sobre interesses escusos do capital transnacional selvagem sobre os últimos resultados da Copa do Mundo, certamente houve uma forte energia feminina nacional determinando a desclassificação do Brasil. Por favor, não espalhem. Acontece que o mulheril estava em polvorosa por conta de seus pares masculinos só quererem estar atentos a TV. “Não agüento mais ele só quer saber de jogo”. “Há dias não sei o que é ir ao cinema ou teatro.” Eles não querem saber de “mais nada. Os olhos ficam vidrados na televisão assistindo um jogo atrás do outro.” Como estou a deriva e há anos não sei o que é isso, pois meu último ex não se deixava sucumbir por homens e bolas, ri muito. Como meus pensamentos fluem igualzinho uma pororoca, lembrei-me logo das sacadas e do desejo de Juremir Machado acertar a Lua, das pernas maravilhosas e do molejo de corpo do Zidane, e do filme ainda fresquinho na minha pele.
Valei-me meu Santo Antonio.
Beijinhos
Luinha
Escrito por Luinha às 14h38
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Abaixo o MENSALÃO
Ontem bem no finzinho do jogo InglaterraXPortugal uma senhora italiana da terceira idade tocou a campainha de minha casa pedindo que eu fosse desligar-lhe o computador. Estava muito nervosa porque do nada a tela ficara ativa. Sua sobrinha esquecera ligado. Pedi um minuto para me compor e fui até lá. Imaginem bem na hora de toda aquela tensão do 0X0. Descobri que ainda gosto de futebol, mas que não seja com a participação do Brasil. Irrita-me ver a mal disfarçada manipulação, as ajeitadas de meia no meio da passarela. Torna-se uma peça esdrúxula - os atores bons, os personagens muito ruins. Os jogadores do Brasil não sabem representar. Desfilam na passarela sem o charme da Gisele. Não tem um ditado assim. “Matheus, antes os meus”. Se não for assim é algo parecido. Prefiro o Brasil mais atento aos seus infortúnios e pronto para outras pelejas locais.
A despeito de meu interesse pela histórica disputa européia, que me fazia lembrar as peladas lá no campo da Klabin Cerâmica, fiquei decente, como se diz lá no Ceará quando a gente põe uma roupa e fica bonita, e fui lá desligar o pc.
Dna. Rosa, só pode ser maldição do nome, Rosas, Rosinhas parecem tudo farinha do mesmo saco, ou das mesmas práticas, veio com seu papo mole e macio e perguntou-me se não poderia fazer um novo recibo para o seu pedreiro. Falei que o pc estava ocupado pela filha. Quem sabe mais tarde?
Torci intensamente na disputa dos pênaltis e pela vitória confirmada das raízes além-mar. A filha controlava o andamento pelo celular. Foi assistir o infortúnio da seleção brasileira lá na Urca. Acabado o jogo eu, boazinha e penalizada, chamei a tal senhora. Em um minuto digitei seu recibo. Tudo certinho. Fui logo despachando o fardo, quando ela veio me contar a história da mudança do recibo. Precisou refazer porque um certo diretor financeiro da empresa que lhe pagava o dinheiro para custear as despesas com a obra dos tais imóveis contou-lhe que a vida andava difícil, se não dava para ela aumentar o preço e lhe dar algum por mês. Ela prontamente aceitou – “tadinho”. “Ele sempre lhe pagava em dia, certinho”. Quase vomitei no recibo. Fechei a porta e fui lavar-me no tanque.
Beijinhos
Luinha
Escrito por Luinha às 07h57
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Mais Rubem Alves - Patativa do Assaré
PATATIVA DO ASSARÉ: Foi o Dr. João Alberto, doutor de olhos, que me abriu os olhos para ver o que eu não havia visto: o Patativa do Assaré. O livro estava no consultório dele. Patativa, se é que vocês não sabem, é o nome de um pássaro de canto mavioso, já quase desaparecido. Pois ele, o Patativa do Assaré, Antônio Gonçalves da Silva, acabou de morrer, aos 93 anos. Poeta do nordeste, sem estudo, doutor honoris causa em várias universidades, assim explicava sua poesia que jorrava como fonte: ”Eu faço o que quero, porque Deus é que quer, não sou eu...” Fernando Pessoa, estudado e culto, também dizia que sua poesia nascia do querer de Deus: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce...” Poesia é a vontade de Deus tornada escrita. O Patativa do Assaré fazia poesia por inspiração divina... Pois vão aí alguns dos seus cantos: “É glória bastante fria/ a daquele que estudou,/ formou-se em filosofia/ mas nunca filosofou.” “Eu acho melhor falar errado dizendo a coisa certa do que falar certo dizendo a coisa errada.” “Sem ver as grandes cegueiras/ da sua própria pessoa/ vive o homem sempre às carreiras/ atrás de uma coisa boa./ Quando a coisa boa alcança/ ele ainda não descansa./ Sente um desejo maior./ Esquece aquela ventura/ e corre logo à procura/ de outra coisa melhor./ Se a segunda ele alcança/ aumenta mais a canseira./ Fica sem se conformar/ correndo atrás da terceira./ Vem a quarta, a quinta, a sexta,/ e ele sendo a mesma besta./ Correndo atrás da ventura/ assim esta vida passa/ e o desgraçado fracassa/ no fundo da sepultura.”
Escrito por Luinha às 11h01
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Responsabilidade
Rubem Alves nos brinda em seus badulaques com umas boas sacudidas. Dê só uma espiadinha
Beijinhos
Luinha
O plantador de jardins: Contaram-me de um homem que, cansado com a cidade, resolveu mudar-se para a região montanhosa onde vivera quando menino. Tinha saudade das matas! Mas qual não foi a sua tristeza ao ver que os homens, com seus machados e serras haviam cortado as árvores. As encostas das montanhas estavam agora peladas e tristes, sem pássaros, sem borboletas, e os antigos riachinhos, sem as matas que os protegessem, haviam secado. Pois ele disse para si mesmo: “Essa será a minha missão, pelo resto da minha vida: sairei todos os dias com um saco de sementes das árvores que aqui havia e irei pelas encostas nuas plantando de novo. Se, de cada dez sementes que eu plantar uma vingar, estarei recompensado. E assim ele fez. Viveu mais dez anos. Morreu feliz! Da janela de sua casinha ele olhava para as montanhas – e ele parecia vê-las sorrir, quem sabe cantar de felicidade! As árvores que ele semeara estavam crescendo, os pássaros haviam voltado, os bichos estavam de volta. Existirá maneira mais linda de morrer? Contei essa estória para as crianças de Caldas, município de Minas, onde está Pocinhos do Rio Verde. Em tempos idos aquela região foi coberta de araucárias, os pinheiros do Paraná. Onde estão os milhões de pinheiros do Paraná que formavam florestas? A ganância e a falta de amor pela terra os transformaram em dinheiro e tristes pastos sem árvores. Contei e sugeri que elas, crianças, como parte de suas atividades escolares, deveriam plantar um pinhão num saquinho, regá-lo, e cuidar da mudinha, até que ela estivesse no tamanho certo. Chegaria então o dia em que todas elas, com suas professoras, seus pais e todo mundo que quisesse, iriam plantá-las nos campos nus. Sugiro que as pessoas religiosas, ao invés de prometerem sacrifícios e repetições de rezas a Deus – Deus não gosta de sacrifícios e quanto às rezas, sempre as mesmas, ele já as sabe de cor; não precisando de nossas repetições – bem que poderiam prometer plantar árvores... Acho que Deus, Jardineiro Supremo, haveria de aprovar. Acho que isso teria de ser atividade obrigatória em toda escola...
Escrito por Luinha às 11h00
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I need you
Ontem bem cedo ouvia Roy Buchanan cantando Baby, baby, baby… I need you. Y need you... e me deixava embalar pela saudade.
Hoje acordo disposta a prosear sobre os acontecimentos de ontem, mas me distraio com as possibilidades que há por aqui.
Comecei cedinho dando meu bom dia habitué para meu amigo gaúcho mais fogoso e uma prima querida. Coisa boa demais começarmos um dia frio de céu claro e azul assim cheia do calor gostoso dessa gente. Logo nos despedimos. O amigo atencioso me envia um PPS lindo de morrer. A prima deixa um recadinho no orkut:
“Depois dessa mensagem senti seu cheirinho do meu lado vc é o máximo bjs” Salve imaginário... realidade. Sempre admiro a competência dessas pessoas queridas, que teimam em nos fazer feliz. É muito bom isso. I love you.
Ao mesmo tempo me entretenho com a leitura gostosa de Rubem Alves. Ele me ajuda a decifrar o tom de meus ais.
“Alma" é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo, como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos.Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora...
Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura de pedaços de nós mesmos que se perdem"
Beijinhos
Luinha
Escrito por Luinha às 08h46
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