Lua Azul
   Inimigos... melhor não tê-los

Espetacular o texto publicado por Francisco Ferraz no site de "Política para Políticos". 

Beijos

Luinha

Inimigos... melhor não tê-los

Não tente mudar seus inimigos: tente controlá-los. Saiba onde estão, o que pensam, e em quem confiam

Inimigo é um problema sério. Em primeiro lugar é importante não confundir adversário com inimigo. Adversários o político sempre terá, contra eles vai concorrer, com eles vai disputar espaço político, prestígio, poder. Adversários entretanto são conjunturais, mudam com o tempo e as circunstâncias. O adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã.


O que distingue o conflito entre adversários e entre inimigos é a presença do ódio como fator dominante, como motivação principal

A disputa entre adversários pode e costuma ser dura, envolve ataques, acusações, hostilidade. Entre adversários, porém, não existe ódio. O que distingue o conflito entre adversários e entre inimigos é a presença do ódio como fator dominante, como motivação principal.

O ódio é pessoal, irreversível, radical. É um sentimento que lança suas raízes no plano mais íntimo da individualidade das pessoas.

Seu objetivo real, muitas vezes não reconhecido, é a eliminação completa do inimigo (eliminação seja no campo da política, da vida social, econômica, profissional, e no limite, o próprio desejo da morte física).

Na vida familiar, social, profissional, podemos ter adversários e até inimigos. O mesmo ocorre na política. As instituições democráticas são as formas mais desenvolvidas de convívio político, exatamente porque institucionalizam o conflito ao tempo em que fixam os seus limites.

O pluralismo, a liberdade de organização política e de associação, os direitos individuais, os direitos das minorias, as eleições periódicas, são todas instituições que legitimam o conflito e o mantêm dentro de limites que respeitem os direitos dos cidadãos.

O que são as eleições senão um conflito limitado entre adversários, com regras claras e explícitas para definir quem vence? Na política democrática então, como regra, o conflito ocorre entre adversários.

Na verdade, é comum dizer-se que os adversários estão nos outros partidos, os inimigos estão no nosso partido!

É um erro de graves conseqüências tratar adversários como inimigos e inimigos como adversários: os primeiros poderão acabar tornando-se inimigos e os segundos não mudarão seus sentimentos.

As leis do poder ensinam que não se deve tentar mudar os inimigos, porque eles não mudarão. O que compete fazer é tentar controlá-los, para evitar que o prejudiquem, porque mil amigos não são suficientes, um inimigo o é. Não existe inimigo inofensivo.


Francisco Ferraz



 Escrito por Luinha às 08h33
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Ontem jantava com a filha e refletíamos sobre o humano e suas relações. Ela concluía como é oportuno um divã.

Interessante que em conseqüência de meus múltiplos uiuis, estive a pouco num banho longo e demorado - nada correto, mas tendo em vista minhas limitações, possível - pensando em reler algumas passagens de Getúlio, de Juremir Machado da Silva, para abstrair um pouco mais sobre o homem, seus podres e amados poderes.

Logo que cheguei ao meu posto avançado de trabalho li o texto do Francisco Ferraz do “Política para Políticos”. Fiquei tocada com o respirar juntos nessa era de redes inorgânicas de conhecimentos. Tudo de bom ... o texto está impecável. Fantástico!

Parei para observar na prática como se daria a arquitetura dessas dolorosas construções. Obrigatoriamente pressupõem-se a necessidade doentia de jogar o famigerado jogo da culpa e representar aqueles papéis de vítima, vilão ou bonzinho.  Estou fora!!!!

Ah... imaginário, quantas possibilidades. Nem sempre percebemos o poder e a responsabilidade sobre a vida e morte que temos ao dispor.

O humano amedrontado ou com baixa estima e muitas frustrações é capaz de mundos e fundos (os freudianos mecanismos de defesa) para preservar sua vida possível esteja lá em Bagda, no Morro dos Macacos, no show da praça da Sé,  ou  em qualquer situação. O jogo perverso é sempre o mesmo.

Outro dia especulávamos sobre os horrores das práticas nos tais ambientes de “minorias”. Falávamos sobre a guerra urbana. Como podem ser tão sórdidos, tiranos vis e opressores. Queimam vivas as envelhecidas crianças ou arrastam inocentes puros por aí. Isso não é nada diferente das queixas que ouço a respeito de várias relações familiares ou nas organizações. Seria todo humano aguerrido, movido somente pela sede de sangue? Só conseguem motivação se estiverem comprometidos com algum tipo de oposição?

Percebo que a respeito do uso do arsenal bélico é tudo igual, seja tecnológico ou psicológico. Diria mesmo que em referência ao uso  estamos avançados em ambos os casos em relação ao altíssimo poder de destruição, mas com erros absurdos na especificidade do alvo. Destruímos todo o entorno. Não sobra nada, seja lá quem for.  

Na minha perplexidade percebo como único remédio uma terapia de beleza para fazer transbordar o amor, próprio, uno, Os recursos necessários são baratos dependem só dos sentidos. Assim ficamos habilitados ao estado de graça, que nos motiva de forma saudável a seguir adiante. Supera-se o medo e as dores do humor. Vivo investindo nisto, quando me sinto esvaziar ouço logo uns sininhos e se teimo em ficar surda vem umas poderosas cornetas em meu socorro avisando “tem que mudar”.

 Fazei-me dizer sim. Anamastê.

Beijos

Luinha



 Escrito por Luinha às 08h17
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   Jardim

Já divulguei o texto espetacular de Rubem Alves, mas cada vez que me encontro com ele fico estimulada por sua beleza.
Ele ainda usa uma das mais belas poesias de Clarice Lispector. Ah! quantas vezes embalei-me por ela. Sempre fico deliciosamente surpreendida com o poder da genialidade do sabedor da arte. Entra por nossas entranhas de forma certeira.
Lá vai repeteco banhado pela belíssima Melodia Sentimental de Villa Lobos com Zizi Possi. Se alguém quiser envio (4mb)
Bem no estilo da saudade tratada por aqui, a bela canção, que conheci numa seção de biodanza uns poucos anos atrás, encaixa-se perfeitamente - uma obra prima.
Infelizmente há restrição de espaço por aqui, vou postar só algumas partes. Na íntegra em meu space do msn.
Love
Luinha
Por Rubem Alves

"... Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.

 

                       

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...

 


 Escrito por Luinha às 07h41
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